QUEM “NÃO GOSTA” DE FEMINISMO?

[POLÍTICA] [CULTURA] [FEMINISMO] [GÊNERO]

No mês em que se celebra a luta das mulheres pelo mundo todo, Joanna Burigo pergunta: quem não gosta de feminismo? Texto escrito com exclusividade para o na encruza.

_______________________________________________________________________

29136368_10160147453660068_2688082776296521728_n
Imagem: Joanna Burigo (por Érik da Silva Pastoris)

 

Quem “não gosta” de feminismo?

 

Por Joanna Burigo

 

Este texto é para quem acredita em respeito mútuo, em valores democráticos, e até mesmo na necessidade pela luta por equidade social, porém não parece compreender perspectivas feministas sobre estes temas. Visando ser didática, congrego nele alguns dados estarrecedores, que são muito frequentemente expostos de forma fragmentada. Porque feminismo é também sobre conhecimento e pesquisa, e além de combater machismo, é preciso sermos firmes no combate aos achismos. O texto não é curto, mas não há outra forma de compreendermos um assunto sobre o qual pouco conhecemos sem que nos dediquemos a absorver ao menos um pouco deste conhecimento.

Muita gente pensa que conhece o feminismo simplesmente porque conhece feministas, ou pior, por ter lido comentários feministas em redes sociais. Isto é um engano. Ora, ninguém aprende a realizar cirurgia cardiovascular, ou construir aeronaves, lendo comentários de entusiastas da medicina ou da engenharia aeronáutica. Comentaristas podem até entender, e muito bem, sobre os assuntos que comentam. Porém apenas ler o que dizem comentaristas não faz de ninguém um expert.

O mesmo vale para a perspectiva feminista. Feministas que comentam em redes sociais entendem o feminismo, ainda que nem todas se expressem didaticamente sobre o tema – e não conseguir se expressar didaticamente sobre qualquer tema é compreensível, afinal uma coisa é entender, e outra coisa, bem diferente, é explicar.

Em termos bastante simples, deslegitimar o feminismo sem saber do que se trata, e faze-lo por ficar desconfortável com comentários feministas feitos na internet, equivale a não gostar de sorvete de pistache sem ter provado o sabor, ou refutar a literatura nacional sem jamais ter lido um livro, ou achar que sabe dirigir sem nunca ter pisado num acelerador, tendo como base apenas comentários feitos publicamente sobre doces, leituras ou veículos.

Assim, penso que existem no mínimo duas possibilidades que explicam um sujeito “não gostar” de feminismo. A primeira é não entender seus fundamentos. Quem não vê que a sociedade em que vivemos é constituída à base de desequilíbrios de poder entre homens e mulheres não vai mesmo conseguir entender nossas demandas. Para começar a compreender perspectivas feministas, antes é preciso aceitar o fato de que as relações sociais, conforme elas estão organizadas por gênero, são injustas. A segunda possibilidade que explica um sujeito “não gostar” de feminismo é o contrário da primeira: é perceber a injustiça destas hierarquias e compreender que o feminismo visa expô-las, confronta-las e desestabiliza-las, sem gostar da ideia de ser necessário abrir mão dos privilégios que resultam destas injustiças.

Consigo entender a ignorância sobre o feminismo e a sociedade em que vivemos, afinal em geral não sabemos muito mais do que sabemos. No entanto, quando esta ignorância é uma escolha, a análise do sujeito deixa de se dar na arena da compreensão pela falta de conhecimento. Quando um sujeito opta por não querer saber sobre injustiças sociais, ou sobre como os feminismos as combatem, o problema não é mais da ordem da ingenuidade. Quando permanecer na ignorância é uma escolha, a análise passa a ser psíquica, política e/ou de caráter.

Um dos conceitos mais conhecidos da filósofa política alemã Hannah Arendt é a noção da “banalidade do mal”. Seu ponto, em termos simples, é a remoção da ideia de maldade da organização dicotômica que a contrasta com o “bem”, para reposicionar sua origem não em uma essência humana vil, mas na ausência de pensamento crítico. Segue que não refletir criticamente sobre injustiças corrobora com a manutenção das mesmas. Na famosa frase do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, “se você vê um elefante pisando no rabo de um rato e se diz imparcial, o rato discordará”. Em um texto de dezembro de 2016 na New Yorker, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie salienta que é preciso “resistir à menor extensão nas fronteiras do que é justo”, e de “queimar falsas equivalências para sempre”, pois “fingir que ambos os lados de uma questão estão em plena equidade” é “um conto de fadas”.

O feminismo queima falsas equivalências de gênero. E estar do lado mais forte destas falsas equivalências sem refletir criticamente sobre elas é ser banal, leviano e irresponsável acerca mal que elas causam.

Comecei a escrever este texto às 23:59 do #8M de 2018. Meu #8M foi, como tendem a ser os outros dias do ano, de promoção do pensamento e das práticas feministas, na companhia de mulheres corajosas que levantam suas potentes vozes contra o sistema patriarcal que nos aprisiona e violenta a todas – sim, todas, mesmo que em diferentes graus, mesmo as que obtém vantagens dentro dele, mesmo as que odeiam o feminismo.

Falo da minha experiência pessoal com a data porque ela ilustra os motivos pelos quais faço essa escrita, que é: o show de horrores que o oito de março costuma desvelar. Um show de horrores que é fruto de desinformação, ignorância, teimosia, soberba e volumes industriais de machismo e misoginia.

Estive com mulheres que lutam, e que levam adiante a luta que nossas antecessoras fizeram por nós. Mulheres brilhantes, como a catarinense Antonieta de Barros, primeira deputada estadual negra do país e primeira deputada mulher de SC, que também foi educadora, escritora e jornalista, cujo trabalho era dedicado à equidade racial e de gênero – e isso na Florianópolis das décadas de 1920-1930.

Mulheres que estudaram e estudam muito, que trabalharam e trabalham pesado, que lutaram e lutam forte, por direitos (como o voto), por dignidade (como a de não ser tratada como objeto), pela liberdade (para sermos a pessoa que pensamos que devemos ser), ou pela vida (essencial no país que carrega a quinta maior taxa de feminicídios do planeta).

Vivemos em tempos sérios. Tempos de polarizações simplificadas. De ódio genocida. Que também são tempos em que opiniões rasas se misturam e se confundem com análises fundamentadas. Portanto, tempos em que precisamos prestar muita atenção nos efeitos dos discursos e imagens que proferimos e permitimos que se propaguem, especialmente os que corroboram com injustiças e mortes evitáveis.

Todos os registros históricos dos movimentos de mulheres, antes mesmo desses movimentos se organizarem como feminismos, nos ensinam que os avanços que conquistamos não são assimilados e incorporados no tecido social com suavidade. Toda conquista é uma batalha, e não é à toa que pensamos no feminismo como uma luta, que é política, que é coletiva. O caráter lutador do feminismo é forjado a ferro e fogo, nas dificuldades postas por um sistema que existe para garantir que algumas vidas valham mais do que outras.

Todos os registros históricos dos movimentos de mulheres também nos ensinam que estas conquistas são violentamente atacadas pelas parcelas da sociedade que pensam que suas vidas valem mais do que outras. (E esses sujeitos podem até não saber que pensam isso, mas esse enfrentamento precisa ser feito.) Foi assim durante os movimentos pelo sufrágio. (Nessa nota, vale assistir ao filme “As Sufragistas”, um produtão de entretenimento fácil que nos ajuda a refletir sobre nós mesmos a partir da nossa des/identificação com as personagens.) Foi assim na segunda onda. E é assim agora.

Toda ampliação do discurso feminista encontra retaliação. Tanto é que esse movimento contrário à garantia de nossos direitos, dignidade, vida e liberdade tem nome: o backlash. O backlash, nas palavras da autora que conceituou este termo no contexto feminista, Susan Faludi, “é um ataque preventivo, que interrompe a corrida das mulheres muito antes que elas atinjam a linha de chegada”.

Nas últimas décadas, com as mudanças trazidas pela mesma internet onde é publicado este texto, os feminismos vêm alcançando mais e mais mulheres, que aos poucos (ou de súbito) compreendem que essa luta é por nós todas. Por direitos, o que inclui o direito, por exemplo, de ser dona-de-casa e dedicar-se aos afazeres domésticos com exclusividade. Aliás, é o próprio feminismo quem visa atribuir valor ao trabalho doméstico, e basta ter um mínimo de conhecimento do discurso para saber disso: vêm dos feminismos as proposições de que o trabalho doméstico seja devidamente valorizado como trabalho.

Discursos rasos sobre o que fazemos não deveriam ser levados a sério. Por ninguém. Mas quando eles encontram espaços de divulgação, é importante que feministas levem isso muito a sério. Feminismo não é moda, nem bandeira, nem questão de gosto, nem algo com que se possa simplesmente discordar. Não é preciso que existam “contrapontos” ao feminismo, pois estes são a sociedade machista e misógina em que vivemos. O feminismo é o próprio contraponto à forma como estamos socialmente organizados, que privilegia as experiências e verdades de homens brancos em detrimento das de todos os outros grupos identitários.

Eu não me tornei feminista por conta de um trauma. E embora pense que seja perfeitamente compreensível e justificável que um trauma tenha sido o motivo da adesão de alguém ao movimento, é frívolo pensar que feministas assim se denominam por algum tipo de ódio recalcado a um indivíduo em especial.

Sou feminista (e penso que o que vou dizer seja verdadeiro para muitas de nós, quiçá a maioria) porque enxergo o mundo com olhos de ver, e o que vejo são dados como 1 estupro a cada 11 minutos, 1 mulher morta (por ser mulher) a cada 2h, mais de 500 mulheres vítimas de agressões (por serem mulheres) a cada hora, 5 espancamentos a cada 2 minutos (dados da Agência Patrícia Galvão sobre o Brasil). Sou feminista porque menos de 10% das obras expostas em museus são feitas por mulheres, mas mais de 80% das imagens de nudez em museus são de corpos de mulheres (dados do coletivo artístico feminista Guerrilla Girls). Sou feminista porque jamais atingimos, neste País, a média mundial de 23% de representação política (que já é baixa, visto que somos mais de 50% da população da Terra), o que nos coloca na 152ª pior posição, muito atrás de países como Angola (46) e Arábia Saudita (98) (dados da União Interparlamentar).Estes são apenas três exemplos da disparidade injusta entre homens e mulheres neste mundo, e eles sequer foram aprofundados com análises referentes a raça, classe social ou deficiência, dentre tantos outros eixos de opressão.

Precisamos estar dispostos a parar de relativizar violências que se dão no bojo do machismo. Parece haver um entrave, uma teimosia, que faz com que as pessoas falhem em perceber que falas e ações têm efeitos materiais, e que algumas perspectivas contribuem para manutenção da violência e para a naturalização de mortes evitáveis.

Alguns discursos e práticas existem pela preservação da vida e da dignidade – e este é o caso do feminismo. Não digo isso por paixão fervorosa pela causa, mas por conhecimento diligentemente adquirido sobre ela. É urgente, na concretude do real, olharmos os corpos e contarmos os mortos. Sem isso, questionamentos feitos na seara do simbólico não passam de disputas inúteis. É urgente percebermos que certas visões de mundo nos empurram para baixo numa espiral negativa que mui frequentemente termina em violência e morte. Os feminismos confrontam estas visões de mundo.

Aos que não gostam de feminismo, que pensem duas vezes, pois nossa luta pela vida digna das mulheres não está apenas começando, e seguirá. Às feministas, rogo que não esmoreçamos. Que sigamos estudando, trabalhando, nos unindo, e nos qualificando cada vez mais, para assim podermos desarticular com propriedade, fundamento e a sustentação que se utiliza de critérios objetivos, o verdadeiro tsunami de chorume composto por opiniões rasas e infundadas, proferidas pelo prazer misógino e perverso de sustentar polêmicas vazias, somente para nos irritar.

Dizer não gostar de feminismo contribui imensamente não apenas com o backlash, mas com os genocídios históricos de mulheres. E o backlash de agora, como a violência contra a mulher, diferem pouco dos de outrora. No entanto, desta vez não tem mais volta. Parafraseando Quintana, todos esses que aí estão atravancando nosso caminho… não passarão. Segura esse forninho.

 

Joanna Burigo é fundadora da Casa da Mãe Joanna, experimento feminista de educação e comunicação sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing no Brasil e no Reino Unido, onde também trabalhou como professora. Co-fundadora do Guerreiras Project e Gender Hub, e coordenadora da EmancipaMulher, vem se dedicando a empreendimentos feministas desde que completou seu mestrado em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. Joanna também é organizadora de dois livros, o Tem saída? Ensaios Críticos sobre o Brasil, e o Novas Contistas da Literatura Brasileira, lançados pela Editora Zouk, e escreve regularmente para Carta Capital.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s